quinta-feira, 1 de julho de 2010

Vida Vaga



Da etérea profundeza do ser
Maldizendo o sentido da vida
Levanta, anda, tropeça,
Cutuca alheia ferida.
Prazer imenso é a intriga,
Olor maior que o bálsamo Mediterrâneo.
Vale mais um inimigo na mão
Do que um amigo voando.
Na presa fixa o veneno,
Cruel é o semblante pleistoceno,
Desde tempos remotos,
Prurido é melhor que refresco.
Bendito Deus, que permitiu
Tua vinda na Terra, e tudo viu.
Não esperava era o erro que cometera,
Tua madre que te pariu.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Recordação

Manhã fria
O Rei Sol não aparecerá para a corte.
Resta-me um agasalho, e botas, talvez.
O coletivo vem chegando,
Levanto a mão direita, sinal universal.
A esquerda ainda dorme.
Pé ante pé, entro,
Sento, ajeito.
O caminho é curto
Melhor eu me levantar.
Avisto uma menina,
Muito jovem.
Em suas doces mãos infantis, um diário,
Como o dos meus tempos de criança.
Olhei de soslaio, vislumbrada.
Figuras abstratas, rabiscos,
Corações e flores.
Oh! Que ternura!
Me vi, uns vinte anos atrás,
Naqueles modos,
Naqueles gestos.
Que saudade da brandura!
Eu era feliz e já sabia,
E hoje eu sei, mais ainda!

Caridade

Grávida, três filhos pequenos,
Rôtos, sujos, famintos.
O que espera uma mãe dessas
Numa noite de Natal?
A vinda de uma alma bondosa,
Com uma ceia farta e especial?
Ou será uma sacola de roupas,
Limpas, brancas, afinal?
Vista meus filhos, moça,
Essa vergonha eu não passo não.
Mulher caridosa, o brilho em meus olhos viu
E com carinho me entregou a sacola do amor gentil.

Vida Insana


Todos em pé
Com seus relaxantes banhos tomados,
E ele, ainda sujo de ontem, anteontem
Ou, quem sabe, do mês passado.
Todos na correria, com seus saborosos cafés tomados,
E ele, com fome, acende um cigarro.
Todos tão sérios, ainda com sono,
Com rostos mal-humorados,
E ele, rindo insanamente
Com um dente quebrado.
Ninguém dá importância
Àquela figura espectral,
E ele, no auge de sua miséria,
Agradece por um Real.
Moço, vida pela frente,
Sem emprego, sem casa.
Quando o vejo sinto alívio,
Mas também sinto dor,
Dor de não dar o valor devido
A tudo o que Deus me deu.
Se é louco, se tem família, não sei,
Só sei que, se for loucura,
É uma loucura Santa.